Efeito de Diferentes Densidades de Estocagem de Pós-larvas de Tilápia-do-Nilo em Tanques-rede na Unidade Piscícola do ISPG
Quantos alevinos cabem, de facto, num metro cúbico de água? Um ensaio de 30 dias com três densidades de estocagem revela qual delas garante o melhor equilíbrio entre crescimento, sobrevivência e conversão alimentar.
A aquacultura como resposta ao declínio da pesca
A produção pesqueira global encontra-se em fase de declínio, com grande parte das pescarias sobre-exploradas ou em exploração óptima, restando pouco espaço para novos aumentos na captura de recursos em meio natural. Em contrapartida, a aquacultura tem evoluído de forma exponencial nos últimos anos, contribuindo já com cerca de 50% da produção pesqueira mundial (FAO, 2020).
Com o crescimento populacional em curso, a necessidade de abastecimento em pescado tende a aumentar, e a aquacultura surge como a grande oportunidade tanto para o consumo interno como para a exportação. Em Moçambique, a piscicultura iniciou-se nos anos 50, na Zambézia, Nampula e Manica, expandindo-se desde então para quase todas as províncias do país, com o objectivo de melhorar o nível de vida das comunidades e garantir a exploração sustentável dos recursos aquáticos (INAQUA, 2008).
A Tilápia-do-Nilo (Oreochromis niloticus) destaca-se neste processo pela facilidade de reprodução e pela longa tradição de cultivo, que remonta ao Egipto antigo, cerca de 2000 a.C. (Figueiredo, 2008). A produção de pós-larvas pode ser feita em diferentes sistemas — aquários, tanques de alvenaria, viveiros ou hapas (tanques-rede de malha fina) —, sendo estas últimas particularmente indicadas pela sua capacidade de suportar densidades elevadas, graças à troca contínua de água com o meio envolvente (Sebrae, 2007).
A definição da densidade de estocagem ideal é, segundo Brandão et al. (2004), o primeiro passo para o desenvolvimento de qualquer manual de criação de uma espécie. Densidades excessivas podem provocar maior mortalidade, redução do crescimento, stresse crónico e maior transmissão de doenças, além de deteriorarem a qualidade da água pelo acúmulo de amónia e matéria orgânica (Kebus, 1992; Tachibana et al., 2008).
Falta de referência local para a fase de pós-larvicultura
A produção de peixe em diferentes sistemas exige diversas técnicas de maneio, essenciais para a qualidade final da carne obtida. Uma densidade de estocagem bem definida pode elevar significativamente o nível de produção e produtividade das pisciculturas.
Faltava conhecimento sobre as densidades reais de estocagem por metro cúbico nesta fase inicial, mais exigente em cuidados, num contexto em que várias pisciculturas vizinhas registavam mortalidades associadas a competição por espaço e alimento e à acumulação de amónia na água.
— Problema identificado no estudoEsta competição por espaço e alimento, associada às reacções metabólicas da decomposição de restos de ração e excretos dos peixes, altera a qualidade da água e afecta directamente o desempenho produtivo, gerando stresse crónico e desviando energia da dieta e das reservas corporais para lidar com essas alterações fisiológicas. Foi neste contexto que se avaliou o efeito de diferentes densidades de estocagem de pós-larvas de Tilápia-do-Nilo em tanques-rede, na unidade piscícola do ISPG.
150 pós-larvas por m³ apresentam o melhor equilíbrio zootécnico
A determinação de uma densidade ideal é essencial para garantir maior lucratividade ao empreendimento, evitando perdas tanto por baixa biomassa como por baixo desempenho individual decorrente de stresse e sobrepopulação. O objectivo deste trabalho foi avaliar o efeito de diferentes densidades de estocagem sobre o desempenho zootécnico de pós-larvas de Tilápia-do-Nilo em tanques-rede, na unidade piscícola do ISPG.
Com peso médio inicial de 0,034 ± 0,02 g, as pós-larvas foram submetidas a três densidades de estocagem (D1 – 100, D2 – 150 e D3 – 200 PLs/m³) em hapas de 1 m³, montadas num tanque escavado de 375 m², durante 30 dias, entre Abril e Maio de 2021. Foram usadas 1.350 pós-larvas, distribuídas num delineamento de blocos completos casualizados, com 3 tratamentos e 3 repetições. Os dados foram analisados por ANOVA e teste de Tukey a 5% de significância, no programa Minitab 18.
| Parâmetro | D1 — 100 PLs/m³ | D2 — 150 PLs/m³ | D3 — 200 PLs/m³ |
|---|---|---|---|
| Ganho de peso (g) | 0,54 ± 0,0049 | 0,6 ± 0,0001 | 0,7 ± 0,0081 |
| Sobrevivência (%) | 98 | 94,7 | 94,5 |
| Conversão alimentar (%) | 0,2 ± 0,25 | 1,5 ± 0,64* | 0,4 ± 0,09 |
* Diferença estatisticamente significativa (p<0,05) em relação aos demais tratamentos.
A taxa de conversão alimentar foi o único parâmetro com diferença estatisticamente significativa, sendo mais elevada no tratamento D2 (150 PLs/m³). Para o ganho de peso e a taxa de sobrevivência não se registaram diferenças significativas entre tratamentos (p>0,05), embora D1 tenha apresentado a melhor sobrevivência (98%), dentro do valor recomendado para a larvicultura.
Os parâmetros físicos da água mantiveram-se dentro de condições limnológicas razoáveis, sem diferença significativa entre tanques: temperatura entre 23,1 ºC e 25,0 ºC e transparência entre 25 e 35 cm. Nas últimas semanas registou-se, porém, uma queda de temperatura até aos 22 ºC, que pode ter contribuído para o desempenho mais fraco das pós-larvas nesse período. Ainda assim, a densidade de 150 PLs/m³ destacou-se com bom desempenho zootécnico geral e taxa de sobrevivência de 94,7%.
Palavras-chave
Visualizar ou baixar o trabalho completo
Podes ler o documento directamente abaixo, ou fazer o download em PDF para consultar mais tarde.
Fontes citadas: FAO (2020); INAQUA (2008); Mourão (2013); Anonymous (2001); Figueiredo (2008); Zimermann (2001); Maeda et al. (2006); Brandão et al. (2004); Tachibana et al. (2008); Senar (2019); Sebrae (2007); Calado et al. (2008); Kebus (1992).