Análise da Eficiência da Vegetação no Controlo do Escoamento Superficial em Bacias Hidrográficas: Estudo de Caso do Rio Licungo, Mocuba
Entre 2013 e 2018, as áreas de alta susceptibilidade ao escoamento superficial no rio Licungo cresceram 65,75%. Um estudo cruza NDVI, declividade e pedologia para perceber porquê.
34 milhões de hectares, e uma taxa de desmatamento preocupante
Moçambique é um país com uma extensão de florestas estimada em cerca de 34 milhões de hectares, representando cerca de 41% do território nacional. As florestas têm um papel importante na regulação do regime hídrico, no fluxo de energia nos ecossistemas, bem como noutros produtos e serviços que beneficiam o Homem (MITADER, 2018).
A conservação da biodiversidade é uma temática de relevância no século XXI, pois a sociedade contemporânea observa um cenário caótico de perda de biodiversidade (Gomes, 2010; Reis & Souza, 2014), sendo a fragmentação dos habitats o principal factor de ameaça à perda de biodiversidade (Reis & Souza, 2014). A população encontra-se num período de crise entre o crescimento e a degradação ambiental, sendo necessária uma reflexão sistemática sobre a influência da sociedade em detrimento do ambiente (Almeida et al., 2010), e parâmetros ou indicadores que contemplem essa discussão e avaliem os índices de sustentabilidade.
O desmatamento de áreas florestais é um dos principais problemas em países em desenvolvimento, devido à forte dependência da população em relação aos recursos naturais. Em Moçambique, a taxa anual de desmatamento foi estimada em cerca de 219.000 hectares, correspondendo a uma taxa de mudança de 0,58 (Marzoli, 2007). A população rural tem aplicado formas irresponsáveis de ocupação do território, explorando o potencial hídrico de forma extensiva através da agricultura e da pecuária, adoptando o desmatamento como técnica para o desenvolvimento destas actividades (Rebouças, 2006), o que rompe o equilíbrio hidrológico de uma bacia e causa impactos ambientais e socioeconómicos (Ferri, 2004).
A cobertura vegetal exerce um papel fundamental na manutenção do ciclo da água, protegendo o solo contra o impacto das gotas de chuva, aumentando a porosidade e a permeabilidade do solo através da acção das raízes, reduzindo o escoamento superficial e mantendo a humidade e a fertilidade do solo pela presença de matéria orgânica (Beltrame, 1994). Magalhães (2000) salienta que um dos grandes desafios do Homem para a conservação ambiental é concentrar esforços e recursos na preservação e recuperação de áreas naturais das quais vários ecossistemas dependem. A degradação ambiental pelo uso e ocupação irregular do solo, associada ao crescimento populacional e à urbanização, tem provocado modificações no meio ambiente, como a diminuição de áreas permeáveis, a supressão da vegetação e o assoreamento dos rios (Vessoni, 2019).
Resiliência moderada, mas em declínio
As transformações de áreas nativas em áreas com influência antrópica constituem um problema crescente em áreas húmidas e secas em todo o mundo (McCray et al., 2005). O estabelecimento da agricultura, da pecuária e da exploração de lenha e madeira são práticas frequentes no processo de antropização, que induzem a escassez do bem explorado, reduzem a eficiência produtiva das terras e afectam a capacidade de resiliência dos habitats (Figueroa et al., 2006).
Segundo Vessoni (2019), a pressão exercida sobre os recursos hídricos compromete o funcionamento hidrológico, resultando em problemas como secas prolongadas ou, noutras localidades, inundações. O processo de apropriação dos recursos naturais nas bacias hidrográficas tem ocorrido muitas vezes em áreas inadequadas, desrespeitando as características físico-naturais e comprometendo o sistema ambiental existente (Oliveira, 2018). A degradação do solo por processos erosivos tem sido foco de estudos geográficos devido à intensa interferência da acção antrópica, visando retornos económicos sem preocupação com o equilíbrio ambiental, favorecendo a intensificação de processos erosivos e do escoamento superficial. Por isso, é fundamental que os estudos que visam reverter e controlar estes processos conheçam a dinâmica erosiva desde os seus primórdios, a partir do momento em que as gotas de chuva começam a atingir o solo (Guerra, 2012).
Ao longo do rio Licungo tem-se verificado uma maior vulnerabilidade à degradação, pois a utilização dos recursos florestais constitui a actividade principal de sobrevivência das famílias locais.
— Luís (2017)Esta observação foi confirmada por Aguacheiro (2021), que, ao estudar o índice de resiliência natural em bacias hidrográficas, observou que, ao longo do rio Licungo, predomina uma resiliência natural moderada, como consequência da degradação. Seybold et al. (1999) salientam que, se o solo for frágil ou sofrer uma perturbação muito drástica, pode sofrer degradação irreversível, excedendo a sua capacidade de resistência e resultando em danos permanentes ou na necessidade de restauração.
A degradação das florestas ribeirinhas ao longo do rio Licungo é influenciada principalmente pelo aumento da urbanização (30,5%), pela extracção de lenha e carvão (22,5%), e pelo aumento das práticas de agricultura itinerante (13,5%) (Luís, 2017). A inexistência de vegetação protectora ao longo das margens do rio está associada aos impactos severos registados nas chuvas intensas de Janeiro de 2015, que provocaram cheias que assolaram directamente a população da Zambézia, com o impacto mais notável nas famílias que habitavam as zonas ribeirinhas, com danos socioeconómicos e ambientais consideráveis (Mavehe, 2018).
Diante do exposto, objectiva-se avaliar a eficiência da vegetação no controlo do escoamento superficial para o período de 2013 a 2019, correlacionada a estudos morfométricos e à caracterização física da bacia hidrográfica do rio Licungo, associando-os às actividades desenvolvidas pela população, consideradas factores de pressão para o aumento ou diminuição do desenvolvimento da cadeia de processos erosivos, devido à ocupação desordenada do solo.
Vegetação densa estável, mas escoamento superficial em alta
O presente trabalho foi desenvolvido no rio Licungo, no município de Mocuba, com o objectivo de avaliar a eficiência da vegetação no controlo do escoamento superficial. Com o auxílio do software Quantum GIS 3.14, fez-se a digitalização do leito do rio e gerou-se um buffer de 50 metros, onde foram analisadas as características morfométricas ao longo do rio Licungo, seguindo-se a determinação da declividade, pluviometria, tipo de solo (pedologia) e vegetação (NDVI), culminando na determinação das áreas susceptíveis ao escoamento superficial ao longo da Área de Preservação Permanente do rio Licungo.
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Índice de circularidade | 0,32 (forma alongada) |
| Densidade de drenagem | 0,76 km/km² (baixa) |
| Declividade suave a ondulada | 67,65% da área |
| Vegetação densa (NDVI, 2013) | 50,40% |
| Vegetação densa (NDVI, 2018) | 50,08% |
| Índice pluviométrico (2013) | 191,71 mm |
| Índice pluviométrico (2018) | 106,28 mm |
| Áreas de baixa susceptibilidade ao escoamento (variação) | Redução de 60,78% |
| Áreas de alta susceptibilidade ao escoamento (variação) | Aumento de 65,75% |
Foram identificados dois tipos de solo na Área de Preservação Permanente: solos argilosos vermelhos e solos vermelhos de textura média. O NDVI indicou que, em ambos os períodos analisados, a maior parte da área de estudo se enquadrou na classe de vegetação densa, com valores praticamente estáveis entre 2013 e 2018. Ainda assim, no mesmo período, as áreas de baixa susceptibilidade ao escoamento superficial reduziram-se significativamente, enquanto as áreas de alta susceptibilidade aumentaram de forma expressiva, um sinal de alerta apesar da vegetação densa se manter relativamente estável. Recomenda-se a adopção de técnicas sustentáveis de maneio do solo e da vegetação, para favorecer a recuperação do ambiente face à redução da capacidade de resiliência ao longo do tempo.
Palavras-chave
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Fontes citadas: MITADER (2018); Gomes (2010); Reis & Souza (2014); Almeida et al. (2010); Marzoli (2007); Rebouças (2006); Ferri (2004); Beltrame (1994); Magalhães (2000); Vessoni (2019); McCray et al. (2005); Figueroa et al. (2006); Oliveira (2018); Guerra (2012); Luís (2017); Aguacheiro (2021); Seybold et al. (1999); Mavehe (2018).