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Corredores Ecológicos no Parque Nacional do Gilé com Apoio de Geotecnologias | Mente258

TCC Geotecnologias Zambézia

Uso de Geotecnologias para o Estabelecimento de Corredores Ecológicos: Estudo de Caso do Parque Nacional do Gilé

Um mapeamento dos fragmentos florestais do PNAG para identificar por onde a fauna ainda consegue, ou poderia voltar a, circular em segurança entre eles.

Autor: Virgínia Gimo

A fragmentação como principal ameaça à biodiversidade

A conservação da biodiversidade é uma temática de relevância no século XXI, pois a sociedade contemporânea observa um cenário caótico de perda de biodiversidade (Gomes, 2010; Reis & Souza, 2014). Muitas espécies foram extintas pelo mundo em prol do uso exaustivo dos recursos naturais, sendo a fragmentação dos habitats o principal factor de ameaça à perda de biodiversidade (Reis & Souza, 2014).

A fragmentação florestal é um processo caracterizado pela redução da vegetação original, dando origem a uma paisagem composta de tamanhos, formas e graus de isolamento diferenciados (Pereira et al., 2016), que acontece com maior intensidade e extensão em função da dinâmica de uso e ocupação da terra produzida pelo homem (Haddad et al., 2015).

De acordo com Viana (1990) e Louzada et al. (2010), factores como a diminuição das áreas de vegetação natural e o grau de isolamento afectam as relações ecológicas entre as espécies, ocasionando um impacto negativo sobre o tamanho das populações. Segundo Pereira (2007), estas áreas isoladas denominam-se fragmentos florestais: áreas de vegetação natural contínua, separadas por barreiras que podem ser de origem natural, como outras formações vegetais, montanhas e lagos, ou antrópicas, como culturas agrícolas, estradas, pastagens e cidades.

As barreiras causadas pela fragmentação diminuem a dispersão dos organismos entre os remanescentes de vegetação, resultando em mudanças na estrutura da comunidade, como a quebra na cadeia alimentar, a modificação ou eliminação de relações ecológicas com outras espécies, como os polinizadores, a perda de indivíduos reprodutivos de populações vegetais e animais, e efeitos indirectos sobre as espécies que restam nestes ambientes, através de mudanças no microclima, entre outros efeitos físicos e biológicos (Szmuchrowski & Martins, 2001).

Neste contexto, os corredores ecológicos apontam para a necessidade da sua preservação e restauração, reconectando diferentes ambientes e fragmentos florestais, minimizando o isolamento causado pela fragmentação, aumentando a cobertura vegetal e garantindo a conservação dos recursos naturais e da biodiversidade de ecossistemas prioritários (Louzada et al., 2010). No Parque Nacional do Gilé, isto significa permitir que os animais transitem com segurança de um fragmento florestal a outro, fornecendo condições ambientais adequadas para a reprodução e sobrevivência dos indivíduos, garantindo o fluxo génico entre populações e favorecendo a dispersão de sementes para a regeneração natural das florestas nativas (Lourenço et al., 2014; Melo et al., 2014; Oliveira et al., 2016).

Para permitir uma melhor avaliação espacial, Guirão et al. (2012), Silva (2014) e Sales et al. (2017) destacam o uso de técnicas de geoprocessamento como ferramenta importante para a análise espacial e, por conseguinte, para o fornecimento de informação para a tomada de decisão, contribuindo significativamente para a evolução das práticas ambientais e para a criação de políticas públicas voltadas para a manutenção e recuperação da biodiversidade e gestão racional dos recursos naturais (Lindenmayer et al., 2008; Oliveira et al., 2016).

A agricultura itinerante e a pressão sobre o parque

As actividades agropecuárias, com destaque para a agricultura itinerante, têm-se expandido de forma acelerada nos últimos anos a nível mundial, com vista a aumentar a produção local, contribuindo de forma significativa para o desflorestamento (Fernandes et al., 2015). Este cenário deve-se à falta de consciência dos utilizadores dos recursos naturais no preparo do uso da terra no meio rural, o que tem suprimido grandes áreas de remanescentes que antes abrigavam espécies raras ou endémicas, tornando as paisagens fragmentadas e isolando os habitats (Brito, 2012).

Apesar de não haver população a residir dentro desta área de conservação, é visível, e cada vez mais acentuada, a perda de vegetação devido ao desenvolvimento da agricultura itinerante, tornando-se uma ameaça para a conservação da biodiversidade do parque e da sua zona tampão.

— Fusari et al. (2010)

Como estratégia para incrementar a conectividade dos habitats no PNAG, os corredores ecológicos podem servir como elo de ligação dos fragmentos importantes, com vista à manutenção e recuperação da biodiversidade (Seoane et al., 2010; Umeda et al., 2015). Conforme Pereira (2010), a conexão dos ecossistemas fragmentados deve ser objecto de estudos amplos da paisagem, com a espacialização de áreas passíveis de serem conectadas e a verificação de trajectórias a partir das quais os corredores ecológicos poderiam ser implantados, garantindo a continuidade das actividades económicas no seu entorno imediato, de forma sustentável.

O uso de geotecnologias torna-se imprescindível para trabalhos desta natureza, uma vez que esta ferramenta é muito utilizada para o monitoramento de áreas extensas de forma sistemática, facilitando o entendimento da dinâmica das partes que compõem a paisagem (Castro & Watrin, 2013), sendo considerada um excelente instrumento para o planeamento e gestão ambiental (Corrêa, 2018; Coutinho, 2019).

A presente pesquisa objectivou estabelecer corredores ecológicos no PNAG, de grande relevância por ajudar as entidades competentes na melhor gestão desta área de conservação, indicando as áreas passíveis de serem conectadas, com vista a minimizar o impacto da fragmentação e aumentar o fluxo dos indivíduos dentro desta área. O trabalho servirá também de base para estudos científicos ligados à conservação da biodiversidade em ambientes fragmentados, dada a escassez de estudos desta natureza a nível nacional e regional.

Fragmentos alongados, mas apenas 0,36% de área com limitações

A presente pesquisa objectivou estabelecer possíveis corredores ecológicos com o apoio das geotecnologias no Parque Nacional do Gilé (PNAG), província da Zambézia. Com o auxílio do software Quantum GIS 3.10, fez-se a classificação supervisionada do uso e ocupação da terra e o cálculo do Índice de Vegetação de Diferença Normalizada (NDVI), gerando-se o shapefile dos fragmentos. Com o cálculo do índice de circularidade, analisou-se a paisagem e seleccionaram-se os fragmentos para a sua conexão, e, com base na declividade e na importância das Áreas de Preservação Permanente, avaliaram-se as áreas potenciais para a passagem dos corredores, culminando na selecção das melhores rotas com base nos custos.

Classe de uso e ocupação da terraÁreaProporção
Vegetação intermédia186.651,64 ha65,24%
Vegetação baixa94.613,27 ha33,07%
Solo exposto2.803,78 ha0,98%
Afloramento rochoso1.029,96 ha0,36%
Corpos de água686,64 ha0,24%
Agricultura314,71 ha0,11%

Os valores de NDVI variaram de -0,168339 a 0,549985, indicando que não há vegetação densa dentro da área de estudo. Os índices de circularidade variaram de 0 a 0,13, o que indica que os fragmentos do PNAG são alongados e propensos a perturbações externas, o chamado efeito de borda.

Classe de relevoÁreaProporção
Plano77.275,61 ha27,01%
Suavemente ondulado109.919,62 ha38,42%
Ondulado85.498,56 ha30,24%
Forte ondulado11.558,44 ha4,04%
Montanhoso743,86 ha0,26%
Escarpado88,13 ha0,03%

Os dados de custos demonstram que apenas cerca de 0,36% (1.029,96 ha) da área total do PNAG apresenta limitações para a passagem dos corredores ecológicos. Conclui-se que o estabelecimento de corredores ecológicos constitui uma ferramenta importante para a desfragmentação, e uma excelente alternativa para a conexão de fragmentos isolados, maximizando o fluxo de animais de diferentes espécies.

Palavras-chave

Fragmentação Florestal Biodiversidade Conservação Corredores Ecológicos Geotecnologias

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Fontes citadas: Gomes (2010); Reis & Souza (2014); Pereira et al. (2016); Haddad et al. (2015); Viana (1990); Louzada et al. (2010); Pereira (2007); Szmuchrowski & Martins (2001); Lourenço et al. (2014); Melo et al. (2014); Oliveira et al. (2016); Guirão et al. (2012); Silva (2014); Sales et al. (2017); Lindenmayer et al. (2008); Fernandes et al. (2015); Brito (2012); Fusari et al. (2010); Seoane et al. (2010); Umeda et al. (2015); Pereira (2010); Castro & Watrin (2013); Corrêa (2018); Coutinho (2019).

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